Publicado
em 09-Mar-2013
Leopoldo Vieira
Leopoldo Vieira

É verdade que, quando comecei minha militância política, já havia um pequeno alento com o levante informacional da guerrilha indígena zapatista no México recém aderido ao NAFTA, mas aos 16 anos observei com entusiasmo a vitória daquele líder militar, de boina vermelha (comprei logo uma para mim numa loja de artigos militares), nas eleições presidenciais venezuelanas.Falava de soberania, questionava a dívida externa e a desigualdade social.
Não era exatamente um socialista, mas aquelas palavras indicavam que a América
do Sul poderia não ser mais uma ilha de resistência apenas e sim da retomada do
exercício do poder pelas esquerdas e movimentos sociais, agora no Sul do globo,
onde reinaram ditaduras e, depois, a mais vil aplicação do receituário
neoliberal. Parecia que a História havia recomeçado e que as utopias voltavam a
ser possíveis.
Também lembro, no momento seguinte, da angústia que senti como jovem, mas já
com destino vinculado às gerações anteriores que ousaram construir um futuro
diferente para a América e para o mundo, quando soube do golpe de estado contra
o presidente Chávez. Lembro da noite em claro acompanhando, pelas lentes do
jornalismo comercial atroz, o processo de retomada do Palácio de Miraflores e,
subsequentemente, da alegria que me tomou ao constatar que "Allende nunca
mais".
A partir daí, na escola, são frescas as memórias sobre a defesa da revolução
bolivariana, de seu caráter profundamente democrático ante as mentiras dos
consórcios midiáticos semeadas diariamente no Brasil e nas sucursais paraenses.
São frescas, do mesmo modo, as memórias dos debates dentro da esquerda, dos
quais participei ativamente, sobre o caráter daquele governo, sempre defendendo
integralmente seu sentido geral e seu acerto enquanto acontecimento histórico,
sem "ses" e meias posições típicas do semi-esquerdismo, a
"frebre-de-sapo" da doença infantil diagnosticada pela primeiro
presidente do comissariado do povo da Rússia.
Chávez, que se foi ontem, foi esta esperança que deu certo. E, como se viu
depois, uma esperança socialista e revolucionária, mas do século XXI, que só se
sustenta pela legitimação democrática permanente da cidadania ativa e de uma
opinião pública crescentemente liberta da sua privatização pela mediação
privada e comercial da informação.
De lá para cá, a América Latina é outra e, por isso, seu legado é inquebrável. Com ele, o Caribe foi salvo de seu "destino manifesto" às avessas:
pobreza, republiquetas de bananas controladas por máfias empresariais
estrangeiras, lavanderias de dinheiro oriundo da pilhagem do poder público e de
outras nações, mini-prostíbulos equipados com cassinos para grandes
milionários. A Venezuela deu gás ao desenvolvimento do bem-estar social cubano
e sua reprojeção como exemplo continental e, através da ALBA (e do petróleo sob
as mãos do povo de Bolívar), levou energia e programas sociais à centro-américa
quase como um todo. Até mesmo aos EUA, quando passaram pela tragédia do furacão
Katrina, foi oferecido aos pobres que lá, sim existem e aos milhões, subsídios
para aquecimento.
Com a liderança de Chávez, nós, os americanos, mandamos a ALCA - a versão 3.0
da Doutrina Monroe - "al carajo". Como modelo de transição real ao
socialismo, a revolução chavista, na prática, começou a construir um poderoso
estado social na Venezuela. Após controlar a PDVSA, foi incrementada a redução
da dívida pública de 45% em 1998 a 20% em 2011. Assim, os investimentos sociais
aumentaram em 60,6%.
Não à toa, a quantidade de crianças na escola passou de 6 milhões em 1998 para
13 milhões em 2011, a taxa de escolarização chegou a 93,2%, saíram de 895.000
para 2,3 milhões os universitários em 2011, a taxa de mortalidade infantil caiu
em 49% e a de desnutrição 40%, a pobreza passou de 42,8% para 26,5%, e a
miséria de 16,6% para 7% em 2011.
Foi criado o "SUS" bolivariano, o Sistema Nacional Público, 95%
(antes 82%) tem acesso à água potável, de 387 mil foi a 2,1 milhões os idosos
com aposentadoria pública, foram construídas 700 mil casas populares na Venezuela,
o desemprego é de apenas 6,4% com jornada de 36 horas e o maior salário mínimo
da América latina. Próxima da segurança alimentar, a Venezuela já produz 71% da
comida que consome. Não foi por acaso, portanto, que tem o índice de Gini mais
baixo do subcontinente, da América Latina, e é o país da região onde há menos
desigualdade. E o maior símbolo deste desenvolvimento, medido por direitos, é
que a pátria de Hugo tem dois satélites espaciais.
O governo do país que é um dos maiores exportadores de petróleo do mundo fez
com que as riquezas oriundas dos dividendos do "ouro negro" voltassem
ao povo, revelando com translucidez indubitável que o Welfare State Tropical
passa pelo manejo com indução e hegemonia do planejamento público sobre as riquezas
naturais. A revolução bolivariana transfere renda diretamente do principal
produto econômico do país para as camadas menos favorecidas, para os
trabalhadores. Isso é o que une, no plano programático, o nacionalismo
revolucionário ao socialismo.
Prosperidade democrática e econômica
Apesar dos editoriais dos jornalões brasileiros, argentinos, venezuelanos,
equatorianos, bolivianos, espanhóis e estadunidenses contra Chávez, O processo
eleitoral na Venezuela é considerado o melhor do mundo pelo ex-presidente dos
Estados Unidos Jimmy Carter, que coordena uma instituição de monitoramento de
eleições ao redor do mundo há mais de uma década.
Apesar de todo o obscurantismo provocado pelos sócios da SIP, o sindicato dos
barões de mídia financiados pela publicidade estadunidense, os especialistas
econômicos não puderam omitir que, em meados de 2012, a bolsa de valores da
Venezuela era a de melhor desempenho no mundo, segundo a corretora
nova-iorquina Auerbach Grayson, que monitora mais de 120 mercados de ações.
Segundo a reportagem "Apesar de incertezas sobre Chávez, Venezuela vem
atraindo investidores", de Matthew Walter no The Wall Street Journal,
"títulos de dívida emitidos pelo país dispararam em valor, reduzindo os
juros". Para além disso, "os títulos de dívida do país estão entre os
de melhor performance nos mercados emergentes sendo que um índice do J.P.
Morgan para os títulos em dólar da Venezuela subiu 9,5% desde dezembro, mais de
duas vezes o retorno de 3,67% de um índice de títulos mais amplo de mercados
emergentes do banco".
Levantamento do IVAD revela que 60,8% da população classifica a situação geral
do país como muito boa, boa e "regular positivo" e, segundo pesquisa
da Gallup internacional, os jovens venezuelanos são os segundos mais otimistas
do mundo, perdendo apenas para os brasileiros. A revolução bolivariana e,
principalmente seus resultados, também inspira esperança no futuro para a nova
geração.
Não poderia ser diferente, quando a economia vai bem porque amparada na
política social. Quando povo e mercado estão afinados, é sinal de que
crescimento econômico e desenvolvimento social estão caminhando juntos, o que
significa o conceito geral de "desenvolvimento".
A Venezuela já é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de
Holanda e China, o que na prática, se considerarmos que o país europeu é o
porto de entrada de produtos para a Europa, a relação com os bolivarianos só
perde para a gigante China, principal parceira de boa parte das nações.
Dos mais de US$ 5 bilhões, quase US$ 1,1 bilhão foi em bois, carnes, açúcar,
bebidas e outros alimentos que o governo de Chávez distribui a preços
subsidiados nos armazéns estatais, como seria natural num estado de bem estar
por lá também em construção e que deve ter como um dos pilares a segurança
alimentar de seus cidadãos.
A entrada da Venezuela no Mercosul transforma o bloco num dos mais potentes do
mundo em população, território e PIB, mas com o destino do desenvolvimento
social, aprofundamento da democracia popular e da soberania política, alicerçada
na independência econômica, como alertava Che. Não é à toa que, se de um lado
os movimentos sociais e a cidadania sul-americana chora morte do
"comandante", por outro, nos bastidores, parcela importante dos
empresários bloqueiam um noticiário efusivo e sensacionalista, do ponto de
vista comemorativo, da extinção dele. Só que todo este legado não ficou refém
de sua direção carismática.
Um movimento político com base popular e organização partidária
Chávez organizou um partido - o PSUV - que organiza toda sua base política e
social e é profundamente articulado com os novos sistemas comunitários de poder
popular emergidos da Constituição Bolivariana. Além de ter anunciado seu
"herdeiro", ao contrário do que gostaria a elite entreguista,
rentista e derrotada na maioria de nossos países, a direção bolivariana dá
sinais explícitos de unidade e não restritos à cúpula do executivo.
Com a passagem de Chávez, está certo o editorial deste 06 de março do Estadão:
ele se junta mesmo a Vargas e a Perón. Para o jornalão, como folclore
monstruoso, mas quem conhece a força do trabalhismo real e do peronismo, com
destaque à sua vertente kirchnerista, só pode constatar a enorme potência que
surgirá desta fato.
Milhões tomarão as ruas de Caracas para velar o presidente, a solidariedade
militante internacional (e institucional) está preparada. Discordo dos
analistas que prevêem uma "corrida ao poder". Do leito-de-morte de
Hugo nasce o chavismo enquanto movimento político, luminoso, popular, com
partido e organização para aprofundar o rumo da Venezuela e da integração
política, social, econômica e cultural da Pátria Grande.
*Leopoldo Vieira é Assessor do Gabinete da Secretaria de Investimentos
Estratégicos/SPI
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