Do Sitio do Instituto Lula
O ex-presidente Lula escreveu um artigo publicado nesta quinta-feira (7) no New York Times, sobre o futuro da América do Sul após a morte do presidente venezuelano Hugo Chávez. No artigo, Lula lembra que Chávez era um homem apaixonado, polêmico, sem freios no discurso, que teve um papel importantíssimo no trabalho pela integração da América Latina e que deixa um grande legado.
O artigo em
inglês pode ser lido na versão online do jornal americano clicando aqui. Leia abaixo a
versão em português:
A América do
Sul após Hugo Chávez
Por Luiz
Inácio Lula da Silva
O presidente
Hugo Chávez foi muito importante para a América Latina e deixa um grande
legado. A história registrará, com justiça, o papel que ele desempenhou na
integração latino-americana e sul-americana, e a importância de seu
governo para o povo pobre de seu país. Mas, antes que a história se
encarregue disso, é importante que tenhamos clareza da importância de Chávez no
cenário político nacional e internacional. Somente assim poderemos definir as
tarefas que se colocarão à nossa frente para que avancemos e consolidemos os
avanços obtidos nesta última década, agora sem a ajuda de sua energia
inesgotável e de sua convicção profunda no potencial da integração dos países
da América Latina e nas transformações sociais necessárias no seu país para
debelar a miséria de seu povo. Suas “misiones” sociais, especialmente na área
da saúde e da habitação popular, foram bem sucedidas em melhorar as condições
de vida de milhões de venezuelanos.
As pessoas
não precisam concordar com tudo que Chávez falava. Tenho que admitir que o
presidente venezuelano era uma figura polêmica, que não fugia ao debate e para
o qual não existiam temas tabus. E preciso admitir que, muitas vezes, eu achava
que seria mais prudente que ele não tentasse falar sobre tudo. Mas essa era uma
característica pessoal de Chávez que não deve, nem de longe, ofuscar as suas
qualidades.
Pode-se
também discordar ideologicamente de Chávez: ele não fez opções políticas fáceis
e tinha enorme convicção de suas decisões.
Mas ninguém
minimamente honesto pode desconhecer o grau de companheirismo, de confiança e
mesmo de amor que ele sentia pela causa da integração da América Latina, pela
integração da América do Sul e pelos pobres da Venezuela. Poucos dirigentes e
líderes políticos, dos muitos que conheci em minha vida, acreditavam tanto na
construção da unidade sul-americana e latino-americana como ele.
Junto com
Chávez criamos a Unasul (União de Nações Sul-Americanas), que integra 12 países
do continente. Em 2010, a Comunidade dos Estados Latino-americanos e Caribenhos
(Celac) saiu do papel e ganhou forma jurídica – e isso não teria sido possível
sem o empenho de Chávez. O Banco do Sul, um banco de desenvolvimento da Unasul,
não seria possível sem a participação do líder venezuelano. Foi junto com ele
também que conseguimos formar a Cúpula América do Sul-África (ASA) e a Cúpula
América do Sul - Oriente Médio.
Assista também ao vídeo que Lula gravou falando sobre Hugo Chávez
Por isso
mesmo que a contribuição de Chávez ao seu país e ao projeto de integração da
América do Sul e da América Latina não se extinguirá com sua morte. Se um homem
público morre sem deixar ideias, quando o seu corpo físico acaba, acaba o
homem. Não é o caso de Chávez, que foi uma figura tão forte que suas ideias
permanecerão discutidas nas academias, nos sindicatos, nos partidos políticos e
em qualquer lugar que exista uma pessoa preocupada com a justiça social e com a
igualdade de poder entre os povos no cenário internacional. E talvez venham a
inspirar outros jovens no futuro, como a vida do herói da independência Simon
Bolívar inspirou o próprio Chávez. Isso no campo das ideias.
No cenário
político onde essas ideias são debatidas, disputadas e podem virar realidade,
todavia, ficar sem Chávez exigirá empenho e vontade para que os ideais do líder
venezuelano não sejam lembrados, no futuro, apenas no papel.
Na
Venezuela, os simpatizantes de Chávez, para manter o seu legado, vão ter pela
frente um trabalho de construção de institucionalidades. Terão que trabalhar
para dar mais organicidade ao sistema político, tornar o poder mais plural,
conversar com outras forças e fortalecer sindicatos e partidos. A unidade do
país dependerá desse esforço.
É preciso
garantir as conquistas obtidas até agora. Essa é, sem dúvida, a aspiração de
todos os venezuelanos, sejam eles de oposição ou de situação, militares ou
civis, católicos ou evangélicos, ricos ou pobres… Todos precisam compreender
que somente a paz e a democracia vão permitir que se realize o potencial de um
país tão promissor quanto a Venezuela.
É preciso
garantir instituições multilaterais fortes para garantir definitivamente a
consagração da unidade da América do Sul. Chávez não estará nas reuniões de
cúpula sul-americanas, mas seus ideais e o governo venezuelano lá estarão. A
convivência democrática na diversidade dos líderes dos governos da América do
Sul e Latina, é a certeza da construção da unidade política, econômica,
social e cultural da América do Sul e da América Latina, que tanto precisamos.
Um caminho sem retorno. E, quanto mais fortes formos, mais teremos força para
negociar a nossa participação da América do Sul nos fóruns internacionais, e
sobretudo, para democratizar os órgãos multilaterais, como a ONU, o Banco
Mundial e o FMI, que ainda respondem à realidade internacional do fim da
Segunda Guerra Mundial e não ao mundo de hoje.
Certamente
Chávez fará falta. Ele era uma figura muito forte e ímpar, capaz de fazer
amizades e se comunicar como poucos líderes. Precisamos ter a sabedoria de
tirar da passagem dele pela Terra e pelo governo da Venezuela as contribuições
que podem resultar na consagração da unidade latino-americana. E tenho a
certeza de que todos os governantes da região farão um grande esforço para que
isso aconteça.
Carismático
e idiossincrático, capaz de fazer amigos com facilidade e de se comunicar com
as massas como poucos outros líderes, Chávez vai fazer falta. Eu, pessoalmente,
guardarei para sempre a relação de amizade e parceria que durante os oito anos
em que trabalhamos juntos como presidentes, produziu tantos benefícios para o
Brasil e para a Venezuela e para os povos de nossos países.




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